Karingana ua karingana
Este jeito
de contar as coisas
à maneira simples das profecias
– Karingana ua Karingana
é que faz a arte sentir
o pássaro da poesia.
E nem
de outra forma se inventa
o que é dos poetas
nem se transforma
a visão do impossível
em sonho do que pode ser.
– Karingana!
Guerra
aos que ficam
resta o recurso
de se vestirem de luto
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ah, cidades
favos de pedra
macios amortecedores de bombas.
Um género de cães ao desbarato
poetas cafres adoçam as nongas
ancestrais dos versos na obsessiva
carne tenra dos açaimos.
A minha dor
Dói
a mesmíssima angústia
nas almas
perto e à distância.
E o preto que gritou
é a dor que se não vendeu
na hora do sol perdido.
Aforismo
O preconceito da ave
não é o tamanho das suas asas
nem o ramo em que poisou
Mas a beleza do seu canto
a largueza do seu voo…
o tiro que amatou.
Poemazinho Eterno
Os amigos
eram falsos como Judas.
Ah, como Judas, não.
Judas arrependeu-se.
Os amigos
eram mesquinhos como Judas.
Ah, mesquinhos como Judas, também não.
Judas vendeu Cristo
e enforcou-se.
José Craveirinha
“Karingana ua caringana”
notas:
Karingana-ua-karingana: forma clássica de iniciar um conto e que possui
o mesmo significado de “Era uma vez”.

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